É de sonho e de pó…

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December 9, 2012 by rodox13

Todo ano a Romaria de Cotia a Pirapora do Bom Jesus é realizada… Pedestres, ciclistas, cavaleiros, charreteiros, jipeiros, aventureiros e religiosos vão até a cidade de Pirapora uns para agradecer ao Bom Jesus por suas graças alcançadas, outros para pagar todo tipo de promessa e outros ainda só para curtir a farra ou testar sua nova “máquina” off road. Como é obvio esse já é um evento tradicionalíssimo na cidade e movimenta muita gente e muita fé.
Eu particularmente não gosto. Por vários motivos que não vem ao caso agora. O que interessa é que apesar de minha aversão ao evento em si, uma única vez participei de uma Romaria. Não esta que é famosa e tradicional, e milhares de pessoas rumam em busca de redenção e uma palavra de fé. A que participei foi organizada por amigos de longa data. Amigos que curtiam a vida todos juntos, com seus filhos e pessoas queridas dessa maneira, estando juntos. O boteco do meu pai serviu de QG, e ponto de partida, para que os compadres maturassem a ideia e a colocassem em prática.
Foi então que na noite de uma sexta feita, no longínquo ano de 1985, ou seria 86, nove pessoas, pais, filhos, compadres e afins, partem em busca da caipira Pirapora. Começava naquele momento uma epopeia que marcou a vida de três moleques e que apenas serviu de amálgama para sedimentar uma amizade de longa data entre aqueles ébrios amigos de fé. Bom, lembro-me que saímos do centro de Cotia e pegamos a estrada velha de Itapevi, rumo à Rodovia Castelo Branco. Todos animados planejando chegar à igreja de Pirapora ao amanhecer. Um dos amigos foi de carro servindo de apoio àqueles que não aguentassem o tranco e para carregar todo o estoque etílico que seria sorvido ao longo da madrugada. Com menos de 3 km rodados os moleques começaram a perguntar: “Pai, falta muito???” ou “Quantos quilômetros são daqui até Pirapora?”. Nesse instante meu pai saca da cinta seu velho cantil, com pinga até a boca, olha para os outros e diz que era a hora dessa molecada começar a aprender sobre a vida! Como num batismo de fogo, literalmente, tomamos nossas primeiras doses do bom e velho aguardente de cana. Não vou negar para vocês, desceu queimando, mas foi impagável sentir essa sensação de liberdade ao lado daquele que sempre foi meu ídolo. E sem medo de errar afirmo que meus amigos – amigos até hoje diga-se de passagem – sentiram o mesmo.
Muita conversa jogada fora, histórias e ‘causos’ contados por pessoas que tinham o prazer de viver entocado no meio do mato, caçando e pescando, sem se importar por todo o desenvolvimento que estava chegando. Uma história mais mentirosa que a outra, mas saborosissimas, daquelas que arrancam gargalhadas de todo mundo. O tempo passava e a percepção dele era nula. Quantas horas de caminhada? Duas? Três? Não importava… O que importava era estar ali, sentindo aquele espírito desbravador e bandeirante, rumo ao desconhecido ao lado das pessoas que mais gostávamos.
Voltando à viagem depois de algum tempo, chegamos à Castelo. Meu pai dizia que a partir dali ainda faltavam 30km em estradas de chão batido e que toda a moleza que pegamos até agora ia começar a mudar. Encarei o quanto pude!!! Na primeira ladeira mais íngreme entreguei os pontos e fui para o carro de apoio descansar. E assim aconteceu com os outros dois moleques quinze minutos depois. Percebi também que a partir daquele momento, não sei se pela ausência dos meninos, a caminhada tomou formas mais religiosas. Cada um no seu passo, cada um com seus pensamentos, cada um no seu ritmo. Como estávamos de carro chegamos primeiro a Pirapora. Acordei, levantei do chiqueirinho da velha Marajó e fui até a ponte que fica enfrente a igreja. Foi aí que pela primeira vez percebi o quanto o ser humano é porco e não respeita aquilo que o cerca. Bolas de espuma com uns 3 metros de diâmetro – pode ser menos afinal uma criança ébria pode ter um pouco menos de noção de tamanho – iam e vinham de acordo com o vento por cima do velho Tiête. Acordei, é claro, meus amigos para verem aquele espetáculo branco que se formava sobre o rio, enquanto esperávamos o resto da tropa bandeirante chegar ao nosso destino. Nossos bravos pais e amigos iam chegando um a um, com aquela papagaiada de gritos e correria em direção aos que chegavam, festejando a conquista. Na hora da chamada percebeu-se que faltava um. Cinco e meia da manhã, seis horas, seis e meia e nem sinal do retardatário da turma. De repente, com as portas da igreja se abrindo e a missa sendo posta eis que surge o último desbravador. Palmas, algazarra, correria…. Enfim festa! Festa por se completar mais uma façanha daquele grupo de amigos e seus filhos ao longo de uma noite que certamente se tornou inesquecível para todos. Adentramos à igreja, assistimos à missa, oramos e voltamos para casa.
Naquele dia comecei a entender o verdadeiro significado de amizade. Percebi que éramos todos iguais e prezávamos exatamente pelas mesmas coisas, independente de ser adulto ou criança. Percebi que um gole de pinga tem muito mais significado quando estamos rodeados dos nossos dando risada do que quando estamos simplesmente abandonados num desses bares da vida. Cresci em sete horas o que não tinha crescido em 10 anos. O grupo ao longo do tempo foi se esvaindo. Nos deram adeus o Ademar e meu pai. O Djalma, o Janinho, o Carlinhos, o Sergio, o Kiko, o Fábio e eu, estamos aqui ainda… Cada um vivendo o seu momento e sua própria vida, mas com a certeza que mesmo distante um do outro, estamos juntos, todos unidos por uma amizade que teima – graças a Deus – em continuar viva e intensa. Não sei se paguei algum pecado naquela época mas com certeza agradeci, e continuo agradecendo, e muito por ter o privilégio ter vivido toda essa emoção e alegria ao lado de pessoas que estarão para sempre em minha memória e em minha vida.

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